Eduardo ‘’Mano Brown’’ Suplicy
Já com o meu ceticismo quanto a palestras de políticos, principalmente do Suplicy, que eu já tinha visto anteriormente (na ocasião em que ele foi à Fundação Santo André falar sobre o antigo reitor Odair Bermelho) fui à palestra do figura.
O tema era o de sempre do Suplicy, a renda mínima de cidadania. Aquele que quando ele invariavelmente começa a falar nas entrevistas, o repórter Vesgo dorme, e os repórteres do CQC avançam a entrevista como se avança os comerciais duma fita gravada.
Ele chegou um pouco atrasado devido ao trânsito, mas chegou, em meio a um mini-protesto do pessoal do PSTU e a mais nova organização estudantil deles, ANEL. Protesto de um lado, puxa-saquismo de outro. Takeopariu, teve gente que deu risada até do Oi que o Suplicy deu. Riu até de quando ele abriu o copo de água!
Mas enfim, eis que começa, com a típica postura pós-governista petista, de estar em cima do muro, e de dizer que ‘’tem que apurar’’. Porra, contratar parentes foi a coisa mais leve que o Sarney fez na vida! Ele merecia perecer dolorosamente só pelo que a máfia (família) dele fez ao Maranhão em tanto tempo. Tudo bem, o assunto da palestra não era esse, e eu não to afim de falar disso.
Cantando Homem na Estrada, inteirinha, do Racionais Mcs (parte sensacional da palestra) e dando exemplos de como uma renda a mais em uma família pode mudar a história dela, o Senador justificou e explicou a bolsa-família, depois explicou como é a renda mínima, como ela surgiria do próprio bolsa-família, mas seria algo muito mais amplo e irrestrito.
Segundo ele mesmo, é um programa que parte do seguinte pressuposto:
A Constituição brasileira protege a propriedade privada. Além disso, dá direito aos detentores da propriedade privada aos lucros, juros e rendas provenientes dela. A instituição da propriedade privada exclui os que não a obtém dos ganhos dela. A renda mínima de cidadania seria, então, o direito da participação de todo o povo brasileiro pelo uso das riquezas da propriedade privada, que, antes de tornada privada, seria de todos.
É uma boa idéia, e, segundo ele, poderia ser até algo que tornasse justo (e ele ressaltou, ‘’se é que algo o torna justo’’) o capitalismo. Porém, eu tenho cá comigo minhas ressalvas e dúvidas.
É um programa que funciona e atua dentro de todas as normas do capitalismo, e não rompe com nenhuma delas, portanto, é como uma resignação a ele. Dessa forma, o Suplicy parece admitir que não tem mais jeito, vamos viver nessa merda de esquema de acúmulo de capital, propriedade privada e de servidão ao Deus-mercado (Lúcifer-mercado, eu diria) a nossa inteira existência. Com a renda mínima, faz-se então tentativa de torná-lo um pouco melhor, ou melhor, menos pior. Continua a proteger a propriedade privada e o acúmulo de capital, sendo, em casos, apenas uma filantropia burguesa, uma criança esperança dos grandes proprietários. É como alguém me disse uma vez: ‘’o que seria da consciência burguesa se não fosse a filantropia?’’.
Além disso, eu me pergunto de onde viria o dinheiro, e como ele seria conseguido. O governo do próprio partido do Suplicy alega que pagar a previdência é difícil, inclusive reformando-a e aumentando o tempo de contribuição/idade dos trabalhadores para que eles possam ter o direito de recebê-la. Se não conseguem (não têm prioridade) em pagar aposentadoria, vão pagar renda mínima de cidadania? Dito isso, logo vem na minha cabeça, que se o programa destina-se a compartilhar os lucros da propriedade privada com os que não a obtém, o lógico seria então que os recursos da renda mínima cidadã fosse provenientes de impostos dos detentores da propriedade privada (inclua nisso não só terras, mas fábricas, extração de riquezas naturais, etc). Olha, tá aí uma coisa que eu pagaria pra ver. O governo tentando taxar esses poderosos! Já até imagino o Eixo do Mal (federação dos bancos, das indústrias, VEJA, William Bonner, militares, etc) promovendo ataques atrás de ataques contra isso. Além de que, uma reforma tributária necessária à tributação dos poderosos, viria da câmara dos deputados e do senado. O que são essas duas instituições senão as mesas de negociações dos próprios detentores da propriedade privada, portanto, burguesia? Afinal, essa é a essência da democracia burguesa. Como partiria daí, uma proposta para que eles taxassem à eles mesmos e perdessem suas margens de lucros exorbitantes?
Outro ponto dito pelo Senador e que eu tenho ressalva é o de que TODOS receberiam a renda mínima. O Ronaldo, a Xuxa, o Pelé, o próprio Suplicy, o presidente Lula... todas as pessoas, proprietários ou não, receberiam a participação pelas riquezas privadas no Brasil. Mas, se os proprietários já recebem os lucros, e irão receber também a renda mínima, isso significa que eles tem direito duas vezes?
Por fim, acho a idéia de que todo o povo brasileiro tem direito a participação dos lucros dos fatores de produção em seu país é uma idéia muito justa. Porém feito corretamente: taxando-se os grandes, e não os preços finais, o que faz com que os pobres utilizem mais de sua renda para consumir os produtos básicos; além de distribuindo esses recursos de maneira justa para os que necessitam deles, ou seja, o que fazem REALMENTE os meios privados terem lucro, os trabalhadores, para cada um de acordo com as suas necessidades.
Minha última ressalva é a de que não pode parar por aí. A única maneira de tornar o capitalismo mais justo é acabando com ele. Portanto, sim, buscar a implantação da Renda Mínima de Cidadania, mas nunca parar a luta!
Suplicy terminou a sua palestra cantando Blowin in the Wind, do Bob Dylan, dizendo que a resposta vem soprada com o vento, e está aí. Eu concordo com ele. Mas acho que o vento para vir com força suficiente para realmente abalar as estruturas e mudar o mundo, vem soprado mais à esquerda.
Guilherme.
Vídeo: Suplicy cantando Bob Dylan, gravado pelo Paulo, já que meu celular deu a doida na hora.
Tem ainda o vídeo dele cantando Racionais, mas ainda não conseguí upar, assim que for upado, atualizarei aqui com link
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